terça-feira, 20 de junho de 2017

Tchau

Fui escritor por um breve período de minha vida, entre 2010 e 2015. Foram alguns textos, vários diários, um livro. Me senti feliz e tão vivo nessa época, que me arrisco a dizer que foi apenas ali que vivenciei o mundo onde estava. E também alguns dos mundos fora de mim.
Ocorre que abandonei a escrita. Fui tomado pelo peso quase descomunal que existia em meu peito e deixei de encontrar na escrita meu refúgio. O peso descomunal era meu amigo desde a mais tenra idade. Apenas na beirada dos anos 30 que descobri que isso era o que todos chamavam de ansiedade. Pois bem, a ansiedade me empurrou para outras coisas. Me empurrou para a loucura que é buscar um emprego que nunca quis. Me empurrou para o medo de gastar meu tempo com algo que não fosse traduzido em dinheiro. Na verdade, ela me empurrou para a segurança. E segurança nunca foi a musa de nenhum artista. Hoje olho pra trás e não fico triste. Pelo menos vivi, na minha juventude, uma centelha de verdade. Ou melhor, da autenticidade. Eu vivi a fagulha da autenticidade. Cheguei a sentir seu calor. Mas agora já é escuro e frio novamente. Lá fora a chuva cai torrencialmente.
Sei que meu fim está próximo e me lembro de 2015. Era uma outra vida naquele tempo. O país mudou. As pessoas mudaram. Eu lancei meu livro em 2015. Disse a mim que queria ser lido. E eu fui lido. A internet possibilita o contato direto com os leitores. E eles comentam. E eu posso ver quantos chegam ao fim da história. É interessante poder saber isso. Mas ao mesmo tempo, pra que serve? Posso dizer que para mim, servia para me envaidecer. Eu fiquei envaidecido com as 800 pessoas que chegaram ao fim do meu livro.
Perai, deixa eu ver aqui.
Foram 424. 424 visualizações no último capítulo. Não sei o que significa, mas me sentia bem. Na lógica da falta de valor próprio, escrever é uma forma de receber validação dos outros. O problema é vários. Eu não gosto nem um pouco de quando não recebo o valor que me falta. Dói, não ser nada. Além disso, isso impregna minha escrita. Isso faz com que eu escreva pensando no que os outros vão querer. No que vão gostar de ler. E daí, é tipo o oásis mais clichezão. Eu vejo, enxergo nitidamente, mas desaparece assim que piso lá. Pum! Só areia. Por isso que minhas outras escritas ficaram uma merda. Tudo que tenho escrito nos últimos dois anos são merda. Claro, eu não escrevo sobre mim. sobre o meu íntimo. Meu medo fudido de ser rejeitado, por exemplo. Não escrevo sobre a compulsão por pornografia. Não escrevo sobre o sentimento de estar sempre desencaixado, nem sobre a loucura que é estar vivendo o sonho de ser aceito pela minha família, sendo homossexual (e descobrir que a vida continua tão confusa quando era antes).
Eu sempre busquei escrever, por que achava que era a única coisa que sabia fazer. Por achar que era um lugar confortável. Onde eu encontraria olhos de aprovação, elogios, palavras de celebração. Pois é isso. Parei. Não faço mais isso. Acabou aqui a carreira que começou simpática lá atrás.
Obrigado se me curtiu e seguiu (haha, que escroto esse ego maldito que pensa que meus "fãs" lerão isso. Relaxa, "ego", to de olho em você. Vou te estraçalhar). Mas continuando, obrigado. Só que agora acabou essa enganação em que me meti.
E vamos pra frente, que é nossa prisão.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Espelho, espelho meu



Parar na frente do espelho e se analisar. Escolher algum detalhe de sua aparência como foco de sua atenção. Rejeitá-lo. Querer ser diferente.
Já fiz esse exercício tantas vezes, que nem me lembro mais. E a prática leva a perfeição.
Só que hoje sei que as sardas que tenho vêm da minha mãe. E com elas, carrego minha mãe comigo, aonde for.
Hoje também sei que esses círculos escuros em volta dos meus olhos, trago da minha avó. E se pensar bem, se parecem com uma maquiagem natural, moldura pros olhos negros, que compartilho com minha irmã.
Sei que, se sou magrelo, meu pai também era na minha idade. E o bigode, que cismou começar a nascer quando eu tinha 12 anos também é dele...
E a cicatriz que tenho no nariz veio das férias, que passei com minha família em Caldas Novas.
Da minha outra vó vem o prazer de ficar acordado, até mais tarde, aproveitando os momentos de solidão que só a madrugada traz. E que desfruto enquanto escrevo estas linhas.
São todos "defeitos" que me definem. Que me conectam com a constelação dos meus. Que me fazem eu.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Para e olha o céu




Já teve uma ideia e a perdeu? Fica na ponta da língua, para saltar, mas hesita. Talvez tenha medo da queda. 

Com certeza já ouviu falar da história da árvore. A árvore que cai em uma floresta sem nenhuma testemunha. Houve barulho? Isso me tira o sono.

Se dois amantes estão juntos na cama, antes de dormir e conversam. Se um dorme antes do outro, isso não provoca tristeza. Em breve o outro também dormirá.

A música ainda não composta. Não se sente falta dela. Uma vez composta, existe e pronto. Quando executada ou quando se cala a orquestra sua existência não cessa. Até chegar o dia em que não haverá quem se recorde de suas notas. Não haverá mais registro. E aí também não se sentirá sua falta.